Quem cuida de quem cuida? O desafio silencioso das famílias diante do envelhecimento no Brasil

O envelhecimento da população brasileira exige uma reflexão sobre as responsabilidades familiares, o trabalho invisível dos cuidadores e a necessidade de políticas públicas que protejam quem precisa de assistência e quem dedica a vida a cuidar.

Por Redação TudoCertoNaBahia

Salvador (BA) — 4 de novembro de 2026

Coluna de opinião — Sociedade e cidadania

Existe um trabalho que começa antes do amanhecer, não tem horário definido para terminar e, muitas vezes, não oferece remuneração, férias ou descanso garantido. É o trabalho realizado por pessoas que dedicam parte significativa de suas vidas aos cuidados de familiares idosos, doentes ou com limitações que dificultam atividades cotidianas.

Em muitos lares brasileiros, alguém precisa organizar medicamentos, preparar refeições, acompanhar consultas, ajudar na locomoção e oferecer apoio durante situações de fragilidade.

São responsabilidades que exigem atenção, paciência, conhecimento e disponibilidade. Entretanto, nem sempre recebem o reconhecimento necessário.

Quando pensamos em uma pessoa idosa que precisa de ajuda, normalmente direcionamos nossa preocupação para suas necessidades. Essa atenção é fundamental. Mas existe uma pergunta igualmente importante: quem está cuidando da pessoa que assumiu a responsabilidade de cuidar?

A questão ultrapassa os limites das relações familiares e precisa ser compreendida como um desafio social, econômico e de saúde pública.

O Brasil está envelhecendo. Estamos preparados?

O envelhecimento populacional já faz parte da realidade brasileira e tende a transformar profundamente a maneira como organizamos os serviços públicos, o trabalho e as relações familiares.

Segundo o Censo Demográfico de 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o país tinha aproximadamente 22,2 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, equivalentes a 10,9% da população.

Em 2010, esse grupo representava 7,4% dos brasileiros. Em apenas 12 anos, o número de pessoas com 65 anos ou mais cresceu 57,4%.

Considerando a definição brasileira de pessoa idosa a partir dos 60 anos, o Censo de 2022 apontou aproximadamente 32,1 milhões de pessoas nessa faixa etária.

Esses números não devem ser interpretados como um problema em si. Viver mais representa uma conquista associada a avanços nas condições de vida, na assistência à saúde e no desenvolvimento social.

O verdadeiro desafio está em garantir que esse aumento da longevidade seja acompanhado por condições adequadas de autonomia, proteção e qualidade de vida.

E isso exige uma pergunta que não pode continuar sendo ignorada: como oferecer cuidado digno a uma população que envelhece sem transferir toda a responsabilidade para seus familiares?

O cuidado não deveria depender do sacrifício de uma única pessoa

Dentro de muitas famílias, as tarefas de cuidado acabam sendo concentradas em uma única pessoa.

Às vezes, é uma filha que precisa reorganizar sua rotina profissional. Em outras situações, uma esposa, um marido, um irmão ou outro familiar assume responsabilidades que exigem dedicação diária.

Naturalmente, ajudar alguém que amamos pode representar uma demonstração de afeto e compromisso.

Entretanto, existe uma diferença entre cuidar por escolha, com apoio e condições adequadas, e assumir sozinho uma responsabilidade que ultrapassa os próprios limites físicos, emocionais e financeiros.

O amor não deveria ser utilizado como justificativa para a ausência de apoio.

Uma família pode valorizar profundamente seus integrantes e, ainda assim, enfrentar dificuldades para oferecer todos os cuidados necessários.

Isso não significa falta de compromisso. Significa reconhecer que determinadas necessidades exigem recursos, serviços especializados e uma rede de proteção mais ampla.

Quem cuida também precisa descansar

Imagine a rotina de alguém que trabalha durante o dia e, ao retornar para casa, precisa acompanhar uma pessoa idosa com limitações de mobilidade.

É necessário administrar medicamentos conforme orientação profissional, organizar a alimentação, ajudar nas tarefas domésticas e acompanhar eventuais necessidades durante a noite.

Quando essa rotina se prolonga por meses ou anos sem divisão de responsabilidades, o cansaço pode se acumular.

O cuidador também pode enfrentar dificuldades para manter sua vida profissional, os relacionamentos, o lazer e os próprios cuidados de saúde.

Por isso, reconhecer a importância dessa função também significa defender condições que permitam descanso, orientação e apoio.

Não é razoável esperar disponibilidade permanente de alguém que também possui necessidades e limites.

Uma sociedade que reconhece a importância de cuidar precisa compreender que a saúde e a dignidade do cuidador fazem parte da qualidade do cuidado oferecido.

A responsabilidade precisa ser compartilhada

O cuidado familiar deve ser compreendido como uma responsabilidade que pode e deve ser dividida sempre que existirem condições para isso.

Nem todos os integrantes de uma família conseguem contribuir da mesma maneira. Alguns possuem limitações financeiras, outros vivem em cidades diferentes ou enfrentam problemas de saúde.

Entretanto, a divisão de responsabilidades pode considerar diferentes formas de participação.

Enquanto uma pessoa acompanha consultas, outra pode ajudar com compras, transporte, organização de documentos ou apoio financeiro, conforme suas possibilidades.

O importante é evitar que todas as demandas sejam automaticamente direcionadas a um único familiar.

Também é necessário questionar a ideia de que cuidar seja uma obrigação naturalmente feminina.

Mulheres frequentemente acumulam responsabilidades domésticas e familiares, muitas vezes junto ao trabalho remunerado. Essa desigualdade é uma das preocupações reconhecidas pela Política Nacional de Cuidados.

Homens, mulheres, famílias, poder público e comunidade precisam participar da construção de soluções mais equilibradas.

O cuidado também é uma responsabilidade pública

O Brasil possui, desde dezembro de 2024, a Lei nº 15.069, que instituiu a Política Nacional de Cuidados.

A legislação reconhece o direito de receber cuidado, de cuidar de outras pessoas e de exercer o autocuidado.

Outro princípio importante é a corresponsabilização entre Estado, famílias, sociedade civil e setor privado.

Em julho de 2025, o Decreto nº 12.562 regulamentou a política e estabeleceu diretrizes para sua implementação.

O reconhecimento legal representa um avanço institucional. Entretanto, a existência de uma política pública não significa que todos os serviços previstos já estejam disponíveis para cada família brasileira.

É necessário transformar as diretrizes em ações concretas, com recursos, equipes capacitadas e serviços acessíveis nos territórios.

Essa é uma questão que merece acompanhamento permanente da sociedade.

Mais importante do que anunciar programas é garantir que as pessoas consigam receber atendimento quando realmente precisam.

Atendimento domiciliar pode representar um avanço

Entre as iniciativas recentes está o Programa de Atenção Domiciliar à Pessoa Idosa (Padi Brasil), lançado pelo Ministério da Saúde em junho de 2026.

A proposta busca ampliar o atendimento de pessoas idosas com limitações funcionais que dificultam o deslocamento até unidades de saúde.

Segundo o Ministério da Saúde, estão previstos aproximadamente R$ 500 milhões em investimentos federais até 2027, destinados ao fortalecimento de equipes multiprofissionais e à ampliação dos cuidados domiciliares.

Profissionais de diferentes áreas podem participar do atendimento, de acordo com a organização dos serviços e as necessidades de cada paciente.

A iniciativa é relevante porque determinadas pessoas idosas enfrentam dificuldades significativas para sair de casa e comparecer regularmente a consultas.

Entretanto, os resultados precisam ser avaliados pela cobertura efetivamente alcançada. O anúncio de recursos não significa que o serviço esteja automaticamente disponível em todos os municípios.

O desafio será fazer com que a assistência chegue às famílias que mais necessitam, respeitando as diferenças entre regiões e condições socioeconômicas.

Envelhecer com dignidade também significa preservar a autonomia

Nem toda pessoa idosa precisa de assistência constante. O envelhecimento acontece de formas diferentes, e muitas pessoas mantêm autonomia para trabalhar, estudar, viajar, praticar exercícios e participar da vida comunitária.

Por isso, é importante não confundir envelhecimento com incapacidade.

O cuidado adequado deve respeitar as escolhas e a independência de cada pessoa, oferecendo apoio na medida de suas necessidades.

Uma sociedade preparada para envelhecer também precisa de espaços públicos acessíveis, transporte adequado, serviços de saúde organizados e oportunidades de convivência.

Em Salvador, iniciativas comunitárias voltadas às pessoas idosas demonstram a importância de oferecer espaços de participação e aprendizagem.

Em outubro, por exemplo, uma oficina de artesanato realizada na Biblioteca Municipal Nair Goulart, no bairro de Valéria, reuniu 30 mulheres idosas em atividades de criatividade e convivência.

A iniciativa, noticiada pelo TudoCertoNaBahia, representa uma dimensão do envelhecimento que também merece atenção: a possibilidade de continuar aprendendo, criando vínculos e participando das atividades sociais.

Garantir qualidade de vida significa reconhecer que as pessoas idosas não devem ser tratadas apenas como destinatárias de cuidados, mas como cidadãs com histórias, interesses e direitos.

Cuidar não pode significar abandonar a própria vida

Uma das reflexões mais importantes sobre o tema está na necessidade de reconhecer os limites de quem cuida.

O compromisso com um familiar não deve exigir o abandono completo da própria saúde, da vida profissional ou dos projetos pessoais.

Buscar ajuda não representa falta de amor ou responsabilidade.

Pelo contrário, construir uma rede de apoio pode contribuir para que o cuidado seja prestado de maneira mais organizada e sustentável.

Famílias que enfrentam dificuldades podem procurar orientação nas unidades de saúde, nos serviços de assistência social e nos equipamentos públicos disponíveis em seu município.

O acesso aos serviços dependerá da situação da pessoa atendida, dos critérios aplicáveis e da disponibilidade na rede local.

É importante que a discussão sobre cuidado deixe de ser tratada apenas como um assunto privado e passe a ocupar espaço permanente nas políticas públicas.

Opinião do TudoCertoNaBahia: reconhecer quem cuida é uma questão de justiça

Para o TudoCertoNaBahia, o envelhecimento da população brasileira exige mais do que ampliar a quantidade de serviços de saúde. É necessário construir uma sociedade capaz de reconhecer o valor humano e social do cuidado.

Não podemos continuar tratando como obrigação invisível uma atividade que sustenta a rotina de tantas famílias.

Quem dedica horas para acompanhar um familiar também precisa de oportunidades para trabalhar, descansar, conviver e cuidar de si.

Da mesma forma, pessoas idosas merecem viver com dignidade, autonomia e acesso aos serviços adequados às suas necessidades.

A responsabilidade não pode ser transferida integralmente para uma única pessoa. Precisa ser compartilhada entre famílias, instituições e poder público.

O desafio do Brasil não está apenas em viver mais. Está em garantir que esses anos adicionais sejam acompanhados de respeito, proteção e qualidade de vida.

E existe uma pergunta que deveria fazer parte das conversas familiares, das decisões políticas e do planejamento das cidades:

Se todos nós podemos precisar de cuidados em algum momento, por que ainda oferecemos tão pouco apoio a quem cuida?

Reconhecer essa realidade é o primeiro passo para construir relações e políticas mais justas.

Porque cuidar de alguém é importante. Mas garantir que ninguém precise cuidar sozinho também deveria ser uma prioridade.

Fontes verificadas


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