Uma nota não define uma vida: por que precisamos diminuir a pressão sobre os estudantes?
Com o Enem 2026 se aproximando, milhares de jovens convivem com expectativas, cobranças e inseguranças. Mas será que estamos ensinando os estudantes a aprender ou apenas a temer os resultados?
Por Redação TudoCertoNaBahia
Coluna de opinião — Educação e sociedade
Salvador (BA) — 3 de novembro de 2026
Faltam cinco dias para o primeiro domingo do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) 2026. Enquanto milhões de estudantes revisam conteúdos e conferem os locais de prova, uma preocupação merece tanta atenção quanto os estudos: a pressão emocional sobre quem está prestes a enfrentar uma das avaliações mais importantes de sua trajetória escolar.
As provas acontecerão nos dias 8 e 15 de novembro. Para muitos candidatos, representam uma possibilidade de ingresso na universidade. Para outros, significam a esperança de conquistar oportunidades profissionais e realizar projetos pessoais.
O problema começa quando essa oportunidade passa a ser tratada como a única chance de construir uma vida bem-sucedida.

Quando a expectativa se transforma em cobrança
É natural que famílias desejem bons resultados para seus filhos. Pais e responsáveis acompanham os estudos, incentivam a dedicação e esperam que o esforço seja recompensado.
Entretanto, existe uma diferença importante entre incentivar e pressionar.
Frases que condicionam o orgulho familiar à aprovação, comparações com outros estudantes e cobranças constantes podem transformar um período de preparação em uma experiência de medo e insegurança.
Uma prova exige conhecimento, concentração e organização. Não deveria exigir que um jovem carregasse sozinho a responsabilidade de corresponder a todas as expectativas das pessoas ao seu redor.
Uma nota mede desempenho, não o valor de uma pessoa
O Enem é um instrumento importante de avaliação e acesso ao ensino superior. Seu resultado pode abrir portas e ajudar a definir caminhos acadêmicos.
Mas uma pontuação não consegue resumir a inteligência, o caráter, a criatividade, a determinação ou as possibilidades de desenvolvimento de um estudante.
Dois candidatos podem chegar ao mesmo exame em condições muito diferentes. Um pode ter acesso a cursos preparatórios, ambiente silencioso e tempo exclusivo para estudar. Outro pode precisar trabalhar, cuidar de familiares ou enfrentar longos deslocamentos diariamente.
Reconhecer essas diferenças não significa desvalorizar o esforço individual. Significa compreender que o desempenho escolar também é influenciado pelas condições disponíveis para aprender.
A comparação pode ser uma armadilha
Na reta final da preparação, é comum encontrar estudantes compartilhando resultados de simulados, horas de estudo e expectativas de aprovação.
Essas informações podem servir como incentivo, mas também provocar a sensação de que todos estão mais preparados.
O estudante que transforma a rotina dos outros em medida de sua própria capacidade corre o risco de ignorar o progresso que já conquistou.
Cada pessoa possui uma história, um ritmo de aprendizagem e diferentes dificuldades. Comparações permanentes raramente mostram esse contexto.
Descansar também faz parte da preparação
Nos últimos dias antes do exame, o impulso de estudar durante horas pode parecer uma forma de compensar conteúdos que não foram completamente dominados.
Entretanto, especialistas ouvidos em reportagens publicadas nesta terça-feira (3) recomendam priorizar revisões, descanso, alimentação adequada e uma rotina de sono regular.
A preparação deve considerar também o bem-estar do estudante. Ansiedade intensa ou persistente, especialmente quando prejudica o sono e as atividades diárias, merece atenção e pode justificar a busca de apoio profissional.
Não é necessário transformar cada minuto em produtividade. Momentos de descanso não anulam meses de dedicação.

O papel da família vai além de cobrar resultados
Na reta final do Enem, uma pergunta simples pode fazer diferença: de que maneira podemos ajudar?
Alguns estudantes precisam de silêncio para revisar conteúdos. Outros precisam de ajuda para organizar o transporte, separar documentos ou preparar a alimentação para o dia da prova.
Há também aqueles que precisam apenas ouvir que continuarão sendo respeitados e apoiados, independentemente da pontuação.
A família não precisa eliminar toda a preocupação de um candidato. Mas pode evitar que o ambiente doméstico se torne mais uma fonte de cobrança.
A sociedade precisa oferecer mais de um caminho
Uma universidade pode transformar trajetórias. A educação superior merece ser valorizada e ampliada.
Ao mesmo tempo, construir um projeto de vida não depende exclusivamente de uma aprovação imediata.
Formação técnica, qualificação profissional, novas tentativas de ingresso no ensino superior e diferentes experiências de aprendizagem também podem fazer parte de uma trajetória.
O papel de uma sociedade comprometida com a educação é ampliar oportunidades, não fazer os jovens acreditarem que uma única prova decidirá definitivamente quem poderão ser.
Opinião do TudoCertoNaBahia
Defendemos que o Enem seja tratado como uma oportunidade importante, e não como um julgamento sobre o valor de cada estudante.
É necessário cobrar políticas públicas de educação, acesso a materiais de qualidade e condições mais justas de preparação. Mas também precisamos rever a maneira como falamos sobre aprovação, fracasso e sucesso dentro das escolas e das famílias.
O jovem que se dedica merece reconhecimento por seu esforço. O que não conquista a nota desejada também merece acolhimento e novas possibilidades.
Na próxima semana, muitos candidatos conhecerão os desafios de uma prova extensa e decisiva para seus planos acadêmicos. Que também encontrem, dentro e fora de casa, pessoas capazes de lembrar que o aprendizado continua depois do exame.
Porque uma nota pode influenciar o próximo passo. Mas não deveria definir uma vida inteira.
Referências verificadas
- Inep — datas e orientações oficiais do Enem 2026.
- Agência Brasil — 01/11/2026: preparação e orientações aos participantes.
- Inep — 26/10/2026: preparação final e apoio aos estudantes de cursinhos populares.
Nota editorial: este texto é uma coluna de opinião. As datas do exame e as orientações institucionais são informações verificáveis; as avaliações sobre cobrança, família e sociedade representam a perspectiva editorial do TudoCertoNaBahia.

