A cidade que esqueceu a sombra: por que caminhar sob o sol virou um retrato da desigualdade urbana?

Em uma cidade onde milhares de pessoas caminham diariamente sob sol intenso, a ausência de árvores revela um problema que ultrapassa a paisagem: quem tem acesso a ruas confortáveis e quem precisa suportar o calor?

Por Redação TudoCertoNaBahia

Coluna de opinião — Meio ambiente, urbanismo e qualidade de vida

Salvador (BA) — 7 de novembro de 2026

Imagine caminhar por uma rua de Salvador ao meio-dia. O sol está forte, o asfalto irradia calor, a calçada parece interminável e não existe uma árvore onde seja possível parar por alguns instantes.

Agora imagine o mesmo percurso em uma avenida arborizada, onde as copas das árvores oferecem sombra, diminuem a exposição direta ao sol e tornam a caminhada mais agradável.

Nos dois cenários, a distância é a mesma. O esforço, entretanto, pode ser completamente diferente.

Essa comparação revela uma questão que deveria ocupar mais espaço no debate sobre desenvolvimento urbano: por que a sombra ainda é tratada como um privilégio, quando deveria fazer parte do planejamento das cidades?

Árvores não são apenas elementos decorativos. Elas ajudam a regular o microclima, oferecem proteção aos pedestres e tornam ruas e praças mais convidativas.

Em uma capital como Salvador, onde as temperaturas elevadas fazem parte da rotina, sua presença merece ser considerada uma necessidade de infraestrutura urbana.

O retrato de Salvador: milhões de pessoas e poucas árvores nas ruas

Os números ajudam a dimensionar a situação.

Segundo uma análise dos dados do Censo Demográfico 2022, divulgada pelo Bahia Notícias em abril de 2025, aproximadamente 65,6% dos moradores de Salvador viviam em vias sem árvores.

O percentual correspondia a cerca de 1,57 milhão de pessoas e colocava a capital baiana entre as cidades brasileiras com menor presença de arborização nas ruas.

É importante esclarecer que esses números se referem à situação identificada em 2022, não a uma nova medição realizada em 2026.

Também é necessário compreender o indicador: a pesquisa observa árvores presentes no trecho da via onde fica o domicílio. Não contabiliza, da mesma forma, toda a vegetação existente em quintais, parques ou áreas privadas.

Mesmo com essas limitações, o levantamento revela um problema relevante para quem precisa utilizar as ruas diariamente.

Afinal, a presença de árvores no caminho de casa até o trabalho pode fazer diferença na experiência de deslocamento.

A desigualdade também pode ser medida pela sombra

Quando pensamos em desigualdade urbana, normalmente lembramos da renda, do acesso à saúde, da educação e da qualidade do transporte público.

Todos esses fatores são fundamentais. Mas existe outra diferença que nem sempre aparece imediatamente nas discussões: a qualidade do ambiente das ruas.

Uma pessoa que mora em uma região arborizada pode contar com percursos mais protegidos do sol, praças agradáveis e espaços públicos que estimulam a convivência.

Quem vive em uma área com pouca vegetação pode enfrentar uma realidade diferente, com caminhadas mais desconfortáveis e menor disponibilidade de locais protegidos do calor.

Isso não significa que todos os bairros valorizados sejam arborizados ou que todas as periferias estejam completamente desprovidas de árvores.

O problema está na distribuição desigual de uma infraestrutura ambiental que deveria beneficiar toda a população.

Uma cidade justa precisa considerar que o conforto térmico também interfere na maneira como as pessoas conseguem utilizar seus espaços.

O calor não afeta todos da mesma maneira

Para quem passa boa parte do dia em ambientes climatizados, o calor das ruas pode representar apenas um desconforto passageiro.

Mas a situação é diferente para vendedores ambulantes, trabalhadores da limpeza urbana, entregadores, agentes de serviços externos e pessoas que dependem de longos deslocamentos a pé.

Também é importante considerar idosos, crianças e pessoas com condições de saúde que exigem maior cuidado durante períodos de temperaturas elevadas.

Para esses grupos, a disponibilidade de sombra, água potável e locais adequados para descanso pode contribuir para uma rotina mais segura e confortável.

Não se trata de afirmar que uma árvore resolve todos os efeitos do calor. A proteção depende de um conjunto de medidas, incluindo arborização, desenho urbano, ventilação, materiais de construção e acesso à água.

Mas seria um erro ignorar a contribuição das árvores dentro dessa estratégia.

O que a ciência diz sobre árvores e temperatura?

Um estudo publicado em 2025 na revista científica GEOUSP, da Universidade de São Paulo, reuniu pesquisas sobre a influência de espécies arbóreas no microclima de cidades brasileiras.

Os trabalhos analisados identificaram que a presença de árvores está associada à redução de temperaturas do ar e das superfícies, além de alterações na umidade relativa.

A intensidade desses efeitos varia conforme a espécie, o tamanho da copa, o local de plantio e as condições ambientais.

Portanto, não existe um número único de graus que toda árvore consiga reduzir em qualquer rua.

O importante é reconhecer que a arborização desempenha uma função ambiental mensurável e pode integrar políticas de adaptação ao calor urbano.

Uma cidade que planta e preserva árvores não está apenas melhorando sua aparência. Está investindo em condições que podem beneficiar a saúde e o bem-estar de seus moradores.

Por que árvores deveriam fazer parte das obras públicas?

Quando uma avenida é reformada, os projetos geralmente destacam pavimentação, iluminação, circulação de veículos e acessibilidade.

Essas melhorias são necessárias. Mas o planejamento deveria incluir, desde o início, soluções de arborização e proteção climática.

Uma calçada nova, perfeitamente pavimentada, pode continuar sendo desconfortável se estiver exposta ao sol intenso durante grande parte do dia.

Da mesma forma, uma praça recém-reformada pode oferecer equipamentos modernos e, ainda assim, ter áreas pouco utilizadas por falta de sombra.

O desafio é entender que infraestrutura urbana também envolve as condições ambientais oferecidas ao pedestre.

Plantar árvores exige planejamento técnico. É necessário avaliar espécies adequadas, raízes, fiação, redes subterrâneas, calçadas, acessibilidade e manutenção.

Não basta colocar mudas em qualquer espaço disponível. É preciso garantir que consigam crescer sem provocar conflitos com outras estruturas.

Uma política eficiente precisa combinar plantio, preservação das árvores existentes e acompanhamento permanente.

Um ponto de ônibus pode mostrar a diferença

Pense em uma pessoa esperando o transporte público às duas horas da tarde.

Se o ponto não possui cobertura adequada nem árvores nas proximidades, a espera pode se tornar especialmente desconfortável.

Agora imagine esse mesmo local com abrigo acessível, bancos, proteção contra chuva e vegetação bem planejada.

A experiência muda, mesmo que o ônibus continue chegando no mesmo horário.

Isso mostra que a qualidade do transporte público não depende apenas dos veículos e das viagens realizadas.

Também depende das condições oferecidas às pessoas antes do embarque e depois do desembarque.

Uma cidade construída para os pedestres precisa considerar todo o percurso, e não apenas o destino.

Uma árvore leva tempo para crescer, mas sua ausência também tem consequências

A arborização urbana exige uma visão de longo prazo.

Uma muda plantada hoje não produzirá imediatamente a mesma sombra de uma árvore adulta.

Por isso, preservar as árvores que já existem deveria ser uma prioridade tão importante quanto ampliar o plantio.

Isso não significa que nenhuma árvore possa ser removida. Existem situações em que doenças, riscos estruturais ou obras essenciais podem exigir intervenção técnica.

Entretanto, decisões desse tipo precisam considerar critérios objetivos, transparência e medidas adequadas de compensação quando cabíveis.

Quando uma árvore adulta é retirada sem planejamento, a perda da sombra pode ser sentida imediatamente pelos moradores.

Recuperar aquele benefício ambiental pode exigir muitos anos.

O Brasil já reconhece a importância da arborização urbana

O debate não depende apenas de iniciativas locais.

O Governo Federal publicou, em 2025, o Plano Nacional de Arborização Urbana (PlaNAU), documento que propõe diretrizes para ampliar e qualificar a presença de árvores nas cidades brasileiras.

O plano utiliza informações do Censo 2022 e destaca a desigualdade no acesso à arborização urbana.

Os dados mostram que cerca de um terço dos moradores urbanos pesquisados vivia em vias sem árvores.

Esses resultados reforçam a necessidade de políticas públicas que considerem a realidade de cada município.

Uma estratégia nacional pode orientar o planejamento, mas sua aplicação depende de decisões locais, capacidade técnica, recursos e acompanhamento.

O plantio precisa ser acompanhado por manutenção, monitoramento e participação da população.

O problema não é somente plantar: é escolher onde plantar

Uma política de arborização não deveria ser avaliada apenas pela quantidade de mudas distribuídas durante uma campanha.

É necessário observar quantas árvores sobrevivem, onde estão localizadas e quais benefícios oferecem à população.

Regiões com pouco acesso a áreas verdes, grande circulação de pedestres e exposição elevada ao calor podem merecer atenção especial.

O planejamento também precisa considerar escolas, unidades de saúde, pontos de transporte público e trajetos utilizados diariamente pelos moradores.

Sem esse cuidado, existe o risco de concentrar investimentos em áreas que já possuem melhores condições ambientais.

A distribuição territorial das árvores deveria ser um indicador de qualidade das políticas urbanas.

Escutar os moradores também faz parte da solução

Quem vive em determinado bairro conhece seus trajetos mais difíceis, os locais sem sombra e os espaços públicos pouco utilizados por causa do calor.

Essa experiência pode contribuir para o planejamento municipal.

A participação dos moradores, entretanto, deve ser combinada com estudos técnicos para evitar plantios inadequados ou intervenções que prejudiquem a acessibilidade.

Uma árvore precisa conviver com a cidade. Ela não deve bloquear a passagem de cadeirantes, comprometer a circulação de pessoas ou interferir indevidamente nas redes de infraestrutura.

Planejamento e preservação não são objetivos opostos. Quando bem integrados, podem contribuir para ruas mais seguras, confortáveis e inclusivas.

Opinião do TudoCertoNaBahia: sombra não deveria ser privilégio

Para o TudoCertoNaBahia, a arborização precisa deixar de ser tratada como um detalhe secundário nas políticas urbanas.

Uma cidade não pode avaliar sua qualidade apenas pela quantidade de prédios construídos, avenidas reformadas ou equipamentos inaugurados.

Também deveria observar se seus moradores conseguem caminhar com conforto, esperar o transporte público em condições adequadas e utilizar os espaços de convivência sem exposição excessiva ao calor.

Defendemos uma política de arborização que seja planejada, transparente e distribuída de maneira justa entre os bairros.

Isso exige preservar árvores adultas, plantar espécies adequadas e garantir manutenção ao longo dos anos.

Também significa reconhecer que os benefícios ambientais precisam chegar às pessoas que passam mais tempo nas ruas e dependem dos espaços públicos.

Não precisamos escolher entre desenvolvimento e natureza. Precisamos compreender que uma cidade desenvolvida também deve oferecer conforto, saúde e qualidade de vida.

Uma árvore não resolve sozinha os problemas de Salvador. Mas uma cidade que ignora suas árvores está deixando de utilizar uma ferramenta importante para melhorar o cotidiano.

O direito à cidade também deveria incluir algo tão simples quanto encontrar sombra pelo caminho.

Referências e dados consultados


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