O tempo que a cidade nos tira: quantas horas da vida perdemos no caminho para o trabalho?
Quando o caminho entre casa e trabalho consome horas todos os dias, não é apenas o transporte que está em discussão. É o direito ao descanso, à convivência familiar e a uma cidade que ofereça oportunidades sem exigir tanto tempo de seus moradores.
Por Redação TudoCertoNaBahia
Salvador (BA) — 5 de novembro de 2026
Coluna de opinião — Sociedade, mobilidade urbana e qualidade de vida
O despertador toca quando a cidade ainda está escura. Antes mesmo de o sol nascer, milhares de pessoas já estão de pé, preparando o café, organizando os filhos, separando os documentos e calculando o tempo necessário para chegar ao trabalho.
Para algumas, o percurso é rápido. Para outras, a jornada começa com uma caminhada até o ponto de ônibus, continua em um coletivo, passa por uma estação de integração e termina depois de mais um deslocamento até o local de trabalho.
Quando finalmente chegam ao destino, essas pessoas já enfrentaram uma parte cansativa do dia. E ainda terão de repetir praticamente o mesmo caminho para voltar para casa.
Esse cotidiano nos leva a uma pergunta importante: quanto tempo da nossa vida estamos entregando apenas para conseguir chegar ao trabalho?
A resposta envolve mais do que congestionamentos ou horários de ônibus. Ela revela como as cidades são organizadas, onde as oportunidades estão concentradas e quanto esforço é exigido de quem mora longe dos principais centros de emprego.

Em Salvador, mais de 195 mil trabalhadores enfrentavam viagens superiores a uma hora
Os números ajudam a compreender a dimensão desse problema.
De acordo com dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) em outubro de 2025, 195.338 trabalhadores de Salvador gastavam mais de uma hora para chegar ao trabalho.
Esse grupo representava aproximadamente 22,6% dos trabalhadores considerados no levantamento para o município.
Entre as capitais brasileiras, Salvador apresentava a terceira maior proporção de trabalhadores com deslocamentos superiores a uma hora, atrás de São Paulo e Rio de Janeiro.
Os dados retratam a situação observada em 2022 e não devem ser confundidos com uma medição atualizada de 2026. Entretanto, oferecem um ponto de partida importante para discutir os desafios da mobilidade urbana.
Na Bahia, o mesmo levantamento identificou 452.089 pessoas que levavam uma hora ou mais no deslocamento para o trabalho, o equivalente a aproximadamente 10,4% dos trabalhadores considerados.
O contraste entre Salvador e o conjunto do estado evidencia que os deslocamentos demorados podem ser particularmente relevantes em grandes centros urbanos.
Uma hora no trânsito não representa apenas uma hora perdida
Imagine uma pessoa que gasta uma hora e meia para chegar ao trabalho e o mesmo tempo para retornar para casa.
São três horas diárias dedicadas ao transporte. Em uma rotina de cinco dias por semana, isso representa 15 horas. Ao longo de quatro semanas, seriam aproximadamente 60 horas.
Esse cálculo é apenas um exemplo ilustrativo. Não representa o tempo médio de deslocamento dos trabalhadores brasileiros.
Mas ajuda a visualizar uma realidade frequentemente ignorada quando discutimos produtividade, renda e qualidade de vida.
Essas horas poderiam ser utilizadas para estar com os filhos, descansar, estudar, praticar atividades físicas ou simplesmente realizar tarefas pessoais sem pressa.
Quando o transporte consome uma parte excessiva do cotidiano, essas possibilidades ficam mais limitadas.
O tempo também é uma forma de riqueza. E sua distribuição entre os moradores de uma cidade está longe de ser igual.
Morar longe das oportunidades tem um custo invisível
Nem sempre uma pessoa escolhe morar distante do emprego por preferência.
O valor dos imóveis, as condições financeiras da família, a oferta de moradias e a distribuição das oportunidades profissionais influenciam essa decisão.
Em muitas cidades, os empregos, hospitais, universidades e serviços especializados ficam concentrados em determinadas regiões, enquanto parte da população reside em bairros afastados.
Essa organização pode obrigar moradores a realizar deslocamentos extensos diariamente.
Quem tem recursos para morar próximo ao trabalho ou utilizar um transporte mais conveniente frequentemente dispõe de alternativas que outras pessoas não conseguem acessar.
Isso não significa que todo usuário de automóvel enfrente viagens rápidas nem que todo passageiro de ônibus tenha trajetos longos.
Significa reconhecer que as possibilidades de deslocamento não são distribuídas de maneira uniforme.
Uma cidade pode oferecer oportunidades de emprego e, ao mesmo tempo, tornar seu acesso excessivamente cansativo para parte dos trabalhadores.
O transporte público precisa ser pensado a partir da vida das pessoas
Quando se discute mobilidade urbana, é comum concentrar a atenção no número de ônibus, quilômetros de vias, novas estações e investimentos em infraestrutura.
Esses indicadores são importantes. Uma cidade precisa de planejamento, obras, equipamentos e sistemas de transporte adequados.
Entretanto, existe uma medida que deveria receber atenção permanente: o tempo efetivamente gasto pelo cidadão até chegar ao seu destino.
Não basta construir uma estação se o passageiro continua esperando excessivamente pela conexão seguinte.
Também não basta ampliar uma avenida se o crescimento do trânsito continua tornando os deslocamentos mais demorados.
A qualidade do transporte deve ser avaliada pela experiência completa: o tempo de espera, a segurança, a lotação, as condições de acessibilidade, o conforto e a confiabilidade do serviço.
Uma viagem curta no mapa pode se transformar em um percurso cansativo quando exige diferentes conexões ou envolve longas esperas.
Por isso, o planejamento urbano precisa considerar não apenas os veículos em circulação, mas também as necessidades reais das pessoas que dependem deles.
A desigualdade também aparece nos meios de transporte
O Censo 2022 revelou diferenças importantes na maneira como os brasileiros se deslocam até o trabalho.
Segundo o IBGE, o automóvel era o meio de transporte principal para 32,3% dos trabalhadores considerados no levantamento, enquanto os ônibus eram utilizados por 21,4%.
Os dados também mostraram diferenças conforme características sociais e econômicas dos trabalhadores.
Entre as pessoas que utilizavam ônibus como principal meio de transporte, aproximadamente 70% gastavam pelo menos meia hora no caminho até o trabalho.
Os resultados reforçam a importância de compreender a mobilidade como uma questão relacionada à distribuição de oportunidades.
Quando uma pessoa precisa gastar muito tempo para chegar ao emprego, o problema não está necessariamente em sua organização pessoal.
Ele pode estar associado à distância, à oferta de transporte, à concentração territorial dos empregos e à própria estrutura da cidade.

O impacto chega à família, aos estudos e ao descanso
Uma jornada de trabalho não começa necessariamente no momento em que o funcionário registra sua entrada na empresa.
Para quem depende de deslocamentos longos, o esforço começa muito antes.
Da mesma forma, o fim do expediente não representa o encerramento imediato das responsabilidades diárias.
Depois do trabalho, ainda existe o caminho de volta, seguido pelas tarefas domésticas e pelos compromissos familiares.
Esse acúmulo pode reduzir as possibilidades de convivência, lazer e formação profissional.
Para quem estuda à noite, por exemplo, um transporte pouco confiável pode dificultar a chegada às aulas.
Para responsáveis por crianças, atrasos podem interferir na organização da rotina familiar e no horário de busca na escola.
O tempo gasto no deslocamento também pode limitar oportunidades de qualificação, especialmente quando cursos e instituições de ensino estão distantes da residência.
Essas consequências precisam ser consideradas quando avaliamos a qualidade de vida nos grandes centros urbanos.
Uma cidade melhor não é apenas aquela que constrói mais
Investimentos em transporte público, metrô, ônibus e infraestrutura viária podem contribuir para melhorar a circulação de pessoas.
Salvador possui projetos de ampliação do sistema metroviário, incluindo as obras de extensão da Linha 1 até o Campo Grande.
Essas intervenções podem ampliar as opções de deslocamento, mas seus resultados precisam ser acompanhados a partir de indicadores concretos, como tempo de viagem, acessibilidade e integração entre diferentes meios de transporte.
Uma cidade também pode reduzir a necessidade de viagens extensas quando aproxima serviços e oportunidades dos bairros onde as pessoas vivem.
A descentralização de empregos, a melhoria das conexões entre bairros e a oferta de equipamentos públicos em diferentes regiões são caminhos que merecem atenção.
O planejamento urbano não precisa eliminar todos os deslocamentos. Isso seria impossível e nem sempre desejável.
O objetivo deve ser garantir que as pessoas tenham alternativas seguras, acessíveis e compatíveis com suas necessidades.
A discussão precisa incluir quem depende do transporte todos os dias
As decisões sobre mobilidade não deveriam ser tomadas apenas com base em relatórios técnicos e projetos de infraestrutura.
O conhecimento dos profissionais especializados é indispensável. Entretanto, a experiência cotidiana dos passageiros também pode oferecer informações relevantes.
Quem utiliza diariamente uma linha de ônibus sabe onde as esperas costumam ser mais longas, quais conexões apresentam dificuldades e em que momentos o serviço deixa de atender adequadamente à demanda.
Essas experiências podem contribuir para orientar o planejamento, desde que sejam consideradas em conjunto com estudos de demanda, segurança e viabilidade operacional.
Uma política de mobilidade comprometida com a população precisa estabelecer mecanismos de avaliação contínua e ouvir os usuários sobre os problemas enfrentados.
Também precisa apresentar resultados de maneira transparente, permitindo que os cidadãos compreendam quais melhorias foram realizadas e quais desafios permanecem.
Opinião do TudoCertoNaBahia: devolver tempo às pessoas também é desenvolver a cidade
Para o TudoCertoNaBahia, a discussão sobre mobilidade urbana precisa ir além do trânsito e das obras anunciadas.
Uma cidade verdadeiramente desenvolvida não deveria exigir que uma parcela significativa de seus moradores sacrificasse tantas horas apenas para trabalhar, estudar ou acessar serviços essenciais.
É necessário compreender que o tempo das pessoas possui valor social, familiar e econômico.
Quando um trabalhador consegue chegar mais cedo em casa, ele pode ter mais oportunidades de conviver com seus filhos, descansar ou investir em seus projetos pessoais.
Quando um estudante consegue chegar à escola sem enfrentar deslocamentos excessivos, amplia suas possibilidades de aprendizagem e participação.
Esses benefícios nem sempre aparecem imediatamente nas fotografias de inauguração de uma obra, mas fazem diferença na vida cotidiana.
É por isso que defendemos uma visão de desenvolvimento urbano que coloque as pessoas no centro das decisões.
Mais importante do que medir apenas quantos veículos circulam é compreender quanto tempo os moradores precisam dedicar para chegar aonde desejam.
Precisamos de cidades que aproximem oportunidades, organizem melhor seus sistemas de transporte e reconheçam que deslocamentos excessivos representam um custo para a sociedade.
O progresso não deveria ser medido somente pela quantidade de obras ou pela extensão das avenidas.
Também deveria ser medido pelo tempo que conseguimos devolver à vida das pessoas.
Porque trabalhar é importante, estudar é fundamental e circular pela cidade faz parte da vida. Mas ninguém deveria precisar passar uma parte tão grande de seus dias apenas tentando chegar ao próprio destino.
Fontes verificadas
- IBGE Educa — 10/11/2025: síntese oficial dos dados do Censo 2022 sobre deslocamentos para trabalho, meios de transporte e diferenças entre regiões.
- IBGE — Censo Demográfico 2022: resultados preliminares da amostra sobre deslocamentos para trabalho e estudo, divulgados em outubro de 2025.
- Bahia Notícias — 09/10/2025: dados do IBGE sobre o tempo de deslocamento na Bahia e em Salvador, incluindo os 195.338 trabalhadores da capital com viagens superiores a uma hora.
- Agência Brasil — 09/10/2025: informações nacionais sobre transporte utilizado para trabalhar, tempo de viagem e desigualdades de deslocamento.

